sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O trabalho sobre a consciência fonológica no pré- escolar





1. Definição do conceito de Consciência Fonológica

Segundo Freitas (2004) a consciência fonológica pode ser definida como a habilidade do ser humano para refletir conscientemente sobre os sons da fala. Para Signorini (1998, in Feitas 2004)) a consciência fonológica pode também denominar-se metafonologia, fazendo parte dos conhecimentos metalinguísticos que, por sua vez, pertencem ao domínio da metacognição. Nesta ordem de ideias, a consciência fonológica permite fazer da língua o objeto de pensamento, possibilitando a reflexão sobre os sons da fala, o julgamento e a manipulação da estrutura sonora das palavras. Outros autores como Tunmer & Rohl (1991 in Silva, 2002) e Sim-Sim (2006), de uma forma mais específica, referem consciência fonológica como a capacidade para manipular conscientemente (mover, combinar ou suprir) os elementos sonoros das palavras orais. Segundo Sim-Sim (2006) a consciência fonológica implica a capacidade de prestar atenção aos sons da fala, permitindo ao sujeito reconhecer e analisar as unidades de som, bem como manipulá-las de forma deliberada. Estas unidades de som podem ser palavras, sílabas, unidades intrassilábicas e fonemas e as capacidades com elas relacionadas refletem-se em níveis que iremos descrever, de uma forma breve, no próximo ponto do trabalho.

2. Níveis de Consciência Fonológica
Goswami e Bryant (1990) referem que a consciência fonológica envolve a aquisição de três formas de consciência: consciência silábica, consciência intrassilábica e consciência fonémica ou segmental. Outros autores como Sim-Sim (2006) e Freitas, Alves & Costa, 2007 referem
também a importância da consciência da palavra no desenvolvimento da consciência fonológica.
Muitos autores, entre os quais Freitas e Santos (2001), referem que estes níveis de consciência fonológica traduzem uma gradação de complexidade, não só no grau de tarefas envolvidas em cada unidade, mas também na unidade a manipular. Neste sentido, Sim- Sim (2006), refere que o desenvolvimento da consciência fonológica parece progredir do nível silábico, passando pelo nível intrassilábico e avançando até ao nível fonémico. Statanovich (1992, in Sim-Sim, 2006) aponta para um crescendo de complexidade, referindo que a atenção e análise requeridas para a consciencialização silábica são de nível inferior à atenção e análise requeridas para a consciencialização fonémica. As tarefas que evocam a consciência intrassilábica são também menos complexas do que as que envolvem a consciência fonémica (Treiman & Zukowski, 1996, in Sim-Sim, 2006).
Assim, a evolução da consciência fonológica parte da sensibilidade a segmentos maiores da fala como as palavras ou as sílabas para a sensibilidade aos componentes fonémicos das palavras. Do ponto de vista desenvolvimentista, a sensibilidade fonológica evolui no sentido da apreensão de segmentos fonológicos sucessivamente mais pequenos (Sim-Sim et al., 2008).



2.1. Consciência da Palavra
A consciência da palavra corresponde à capacidade de segmentação da linguagem oral em palavras (Rios, 2013). Para Viana e Teixeira (2002, cit. por Rios, 2013), a capacidade que as crianças manifestam para segmentar as frases em palavras encontra-se fortemente correlacionada com o seu posterior desempenho na leitura.
Para Freitas, Alves & Costa (2007) uma das dificuldades relacionadas com este nível pode passar pela identificação das fronteiras das palavras. Embora se assuma que as crianças possuem a capacidade para segmentar frases em palavras à entrada para a escola, na verdade, estudos realizados mostram que a consciência desta unidade pode não estar completamente desenvolvida nos primeiros anos. Desta forma, a identificação da palavra deve ser trabalhada em contexto letivo.


2.2. Consciência Silábica
A consciência silábica diz respeito à capacidade de identificar e manipular sílabas de uma palavra (Rios, 2013). A consciência silábica compreende a capacidade de dividir as palavras em sílabas, sendo o primeiro e talvez o caminho mais óbvio para a segmentação sonora (Freitas, 2004). A sílaba constitui uma unidade gramatical estruturadora do conhecimento fonológico, desempenhando um papel fundamental na aquisição e no desenvolvimento das competências da leitura e da escrita (Martins, 1996; Freitas e Santos, 2001; Viana, 2001, in Freitas et al, 2007).
Desde cedo as crianças demonstram facilidade em segmentar as palavras em unidades às quais chamamos sílabas (Freitas, 2004; Freitas, Alves e Costa, 2007), sendo este um excelente indicativo de que possuem um nível de consciência fonológica (Freitas, 2004). Assim, muitos autores defendem que o desenvolvimento deste nível precede o desenvolvimento da consciência das outras unidades fonológicas (Freitas, Alves e Costa, 2007; Sim-Sim, 2006; Statanovich ,1992, in Sim-Sim, 2006).
As crianças em idade pré-escolar revelam sucesso em tarefas que envolvem a síntese, a análise ou a deteção de sílabas comuns em
diferentes palavras. Contudo, revelam dificuldades em tarefas que implicam a supressão da unidade silábica (Sim- Sim et. al, 2008).


2.3. Consciência intrassilábica
A consciência intrassilábica depende da capacidade de identificar e manipular as unidades que constituem a sílaba (Rios, 2013). Comparativamente à consciência silábica, a consciência intrassilábica é de desenvolvimento mais lento (Freitas, Alves e Costa, 2007; Rios, 2013).
A propósito do desenvolvimento deste tipo de consciência, Sim-Sim (2006) refere que por volta dos quatro ou cinco anos a criança começa a compreender que a sílaba é divisível em unidades menores. Treiman e Zukowski (1996, cit. por Alves e Alarcão, 2010) referem que a emergência da consciência intrassilábica se dá por volta dos cinco/seis anos, depois da consciência silábica, pois requer maior maturidade (psico)linguística.


2.4. Consciência fonémica
A consciência fonémica compreende a capacidade de dividir as palavras em fonemas, ou seja nas menores unidades de som Para isso é necessário compreender que uma palavra é um conjunto de fonemas(Freitas, 2004).No entanto, o carácter abstrato do fonema aumenta a dificuldade de a criança realizar a segmentação fonémica de uma dada produção oral ( Tunmer, Pratt, Herriman, 1984 in Freitas 2004). À entrada na escola são poucas as crianças que revelam sensibilidade às unidades segmentais (Freitas, Alves e Costa , 2007). A consciência intrassilábica e a consciência fonémica são de
desenvolvimento mais lento, comparativamente à consciência silábica (Freitas, Alves e Costa, 2007.



3. Relações entre a consciência fonológica e a aprendizagem da leitura e da escrita 

Inúmeros autores têm sublinhado a relação entre o desenvolvimento da consciência fonológica e o sucesso da aprendizagem da leitura e da escrita (Freitas & Santos, 2001; Silva, 2002; Sim-Sim, 2006; Freitas, Alves e Costa, 2007). De fato, é fácil compreender que uma criança que chega ao 1º Ciclo sendo capaz de segmentar palavras em sons tem a sua aprendizagem facilitada, passando assim para a etapa seguinte, aprendendo que existem correspondências entre os sons e os grafemas e ainda aprendendo a estabelecer essas correspondências de forma correta (Freitas & Santos, 2001).
No entanto, apesar de muitos estudos apontarem para a relação que existe entre o desenvolvimento da consciência fonológica e o sucesso na aprendizagem da leitura e da escrita existe alguma controvérsia relativamente ao sentido desta relação. Se para alguns autores a consciência fonológica é uma condição de sucesso na aprendizagem da leitura e da escrita, outros consideram que a aprendizagem do sistema alfabético contribui para o desenvolvimento da consciência fonológica (Bradley & Bryant, 1983; Mann, 1989; Goswami, 1990 in Sim-Sim, 2006).
Para Sim-Sim et al. (2008) a relação entre a consciência fonológica e a aprendizagem parece ser uma relação recíproca e interativa. A perspetiva de uma relação recíproca entre a consciência fonológica e a aprendizagem fundamenta-se no pressuposto de que é necessário um mínimo de capacidades de reflexão sobre o oral para que a criança consiga apreender a lógica inerente ao processo de codificação da linguagem escrita. A aquisição da linguagem escrita vai, por sua vez,
aprofundar o desenvolvimento de competências fonológicas mais sofisticadas. Por outras palavras, as capacidades infantis de análise das palavras em unidades silábicas, intrassilábicas ou mesmo a deteção de fonemas iniciais comuns em diferentes palavras, facilitam o processo de aprendizagem da leitura e escrita. Contudo, a consciência explícita de que as palavras podem ser segmentadas em sequências de fonemas parece ser uma consequência do próprio processo de aprendizagem da leitura.

4. A importância do treino da consciência fonológica no pré- escolar 

Freitas, Alves & Costa (2007) defendem que o sucesso da aprendizagem da leitura e da escrita está correlacionado com os desempenhos do sujeito na oralidade: os sujeitos com fraco desempenho na produção e perceção de enunciados orais são os que maiores dificuldades apresentam no processo de aprendizagem da leitura e da escrita. Assim, o desenvolvimento de competências no domínio da oralidade deve ser promovido em contexto escolar, como medida preventiva do insucesso no desempenho de tarefas de leitura e de escrita. O trabalho sobre a consciência fonológica, realizado desde cedo e generalizado a toda a população infantil permitirá promover o sucesso escolar.
Muitos estudos têm vindo a demonstrar que a implementação de programas de treino relativos à consciência fonológica, ou seja, programas que conduzem as crianças a focar a sua atenção nos segmentos sonoros das palavras, durante a educação pré-escolar, facilita o processo formal da aprendizagem da leitura (Sim-Sim et al., 2008). 

5. Sugestão de atividade




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