1. Definição do conceito de Consciência Fonológica
Segundo
Freitas (2004) a consciência fonológica pode ser definida como a
habilidade do ser humano para refletir conscientemente sobre os sons da
fala. Para Signorini (1998, in Feitas 2004)) a consciência fonológica
pode também denominar-se metafonologia, fazendo parte dos conhecimentos
metalinguísticos que, por sua vez, pertencem ao domínio da metacognição.
Nesta ordem de ideias, a consciência fonológica permite fazer da língua
o objeto de pensamento, possibilitando a reflexão sobre os sons da
fala, o julgamento e a manipulação da estrutura sonora das palavras.
Outros autores como Tunmer & Rohl (1991 in Silva, 2002) e Sim-Sim
(2006), de uma forma mais específica, referem consciência fonológica
como a capacidade para manipular conscientemente (mover, combinar ou
suprir) os elementos sonoros das palavras orais. Segundo Sim-Sim (2006) a
consciência fonológica implica a capacidade de prestar atenção aos sons
da fala, permitindo ao sujeito reconhecer e analisar as unidades de
som, bem como manipulá-las de forma deliberada. Estas unidades de som
podem ser palavras, sílabas, unidades intrassilábicas e fonemas e as
capacidades com elas relacionadas refletem-se em níveis que iremos
descrever, de uma forma breve, no próximo ponto do trabalho.
2. Níveis de Consciência Fonológica
Goswami
e Bryant (1990) referem que a consciência fonológica envolve a
aquisição de três formas de consciência: consciência silábica,
consciência intrassilábica e consciência fonémica ou segmental. Outros
autores como Sim-Sim (2006) e Freitas, Alves & Costa, 2007 referem
também a importância da consciência da palavra no desenvolvimento da consciência fonológica.
Muitos
autores, entre os quais Freitas e Santos (2001), referem que estes
níveis de consciência fonológica traduzem uma gradação de complexidade,
não só no grau de tarefas envolvidas em cada unidade, mas também na
unidade a manipular. Neste sentido, Sim- Sim (2006), refere que o
desenvolvimento da consciência fonológica parece progredir do nível
silábico, passando pelo nível intrassilábico e avançando até ao nível
fonémico. Statanovich (1992, in Sim-Sim, 2006) aponta para um crescendo
de complexidade, referindo que a atenção e análise requeridas para a
consciencialização silábica são de nível inferior à atenção e análise
requeridas para a consciencialização fonémica. As tarefas que evocam a
consciência intrassilábica são também menos complexas do que as que
envolvem a consciência fonémica (Treiman & Zukowski, 1996, in
Sim-Sim, 2006).
Assim, a evolução da consciência fonológica
parte da sensibilidade a segmentos maiores da fala como as palavras ou
as sílabas para a sensibilidade aos componentes fonémicos das palavras.
Do ponto de vista desenvolvimentista, a sensibilidade fonológica evolui
no sentido da apreensão de segmentos fonológicos sucessivamente mais
pequenos (Sim-Sim et al., 2008).
2.1. Consciência da Palavra
A
consciência da palavra corresponde à capacidade de segmentação da
linguagem oral em palavras (Rios, 2013). Para Viana e Teixeira (2002,
cit. por Rios, 2013), a capacidade que as crianças manifestam para
segmentar as frases em palavras encontra-se fortemente correlacionada
com o seu posterior desempenho na leitura.
Para Freitas, Alves
& Costa (2007) uma das dificuldades relacionadas com este nível pode
passar pela identificação das fronteiras das palavras. Embora se assuma
que as crianças possuem a capacidade para segmentar frases em palavras à
entrada para a escola, na verdade, estudos realizados mostram que a
consciência desta unidade pode não estar completamente desenvolvida nos
primeiros anos. Desta forma, a identificação da palavra deve ser
trabalhada em contexto letivo.
2.2. Consciência Silábica
A
consciência silábica diz respeito à capacidade de identificar e
manipular sílabas de uma palavra (Rios, 2013). A consciência silábica
compreende a capacidade de dividir as palavras em sílabas, sendo o
primeiro e talvez o caminho mais óbvio para a segmentação sonora
(Freitas, 2004). A sílaba constitui uma unidade gramatical estruturadora
do conhecimento fonológico, desempenhando um papel fundamental na
aquisição e no desenvolvimento das competências da leitura e da escrita
(Martins, 1996; Freitas e Santos, 2001; Viana, 2001, in Freitas et al,
2007).
Desde cedo as crianças demonstram facilidade em segmentar
as palavras em unidades às quais chamamos sílabas (Freitas, 2004;
Freitas, Alves e Costa, 2007), sendo este um excelente indicativo de que
possuem um nível de consciência fonológica (Freitas, 2004). Assim,
muitos autores defendem que o desenvolvimento deste nível precede o
desenvolvimento da consciência das outras unidades fonológicas (Freitas,
Alves e Costa, 2007; Sim-Sim, 2006; Statanovich ,1992, in Sim-Sim,
2006).
As crianças em idade pré-escolar revelam sucesso em tarefas que envolvem a síntese, a análise ou a deteção de sílabas comuns em
diferentes
palavras. Contudo, revelam dificuldades em tarefas que implicam a
supressão da unidade silábica (Sim- Sim et. al, 2008).
2.3. Consciência intrassilábica
A
consciência intrassilábica depende da capacidade de identificar e
manipular as unidades que constituem a sílaba (Rios, 2013).
Comparativamente à consciência silábica, a consciência intrassilábica é
de desenvolvimento mais lento (Freitas, Alves e Costa, 2007; Rios,
2013).
A propósito do desenvolvimento deste tipo de consciência,
Sim-Sim (2006) refere que por volta dos quatro ou cinco anos a criança
começa a compreender que a sílaba é divisível em unidades menores.
Treiman e Zukowski (1996, cit. por Alves e Alarcão, 2010) referem que a
emergência da consciência intrassilábica se dá por volta dos cinco/seis
anos, depois da consciência silábica, pois requer maior maturidade
(psico)linguística.
2.4. Consciência fonémica
A
consciência fonémica compreende a capacidade de dividir as palavras em
fonemas, ou seja nas menores unidades de som Para isso é necessário
compreender que uma palavra é um conjunto de fonemas(Freitas, 2004).No
entanto, o carácter abstrato do fonema aumenta a dificuldade de a
criança realizar a segmentação fonémica de uma dada produção oral (
Tunmer, Pratt, Herriman, 1984 in Freitas 2004). À entrada na escola são
poucas as crianças que revelam sensibilidade às unidades segmentais
(Freitas, Alves e Costa , 2007). A consciência intrassilábica e a
consciência fonémica são de
desenvolvimento mais lento, comparativamente à consciência silábica (Freitas, Alves e Costa, 2007.
3. Relações entre a consciência fonológica e a aprendizagem da leitura e da escrita
Inúmeros
autores têm sublinhado a relação entre o desenvolvimento da consciência
fonológica e o sucesso da aprendizagem da leitura e da escrita (Freitas
& Santos, 2001; Silva, 2002; Sim-Sim, 2006; Freitas, Alves e Costa,
2007). De fato, é fácil compreender que uma criança que chega ao 1º
Ciclo sendo capaz de segmentar palavras em sons tem a sua aprendizagem
facilitada, passando assim para a etapa seguinte, aprendendo que existem
correspondências entre os sons e os grafemas e ainda aprendendo a
estabelecer essas correspondências de forma correta (Freitas &
Santos, 2001).
No entanto, apesar de muitos estudos apontarem
para a relação que existe entre o desenvolvimento da consciência
fonológica e o sucesso na aprendizagem da leitura e da escrita existe
alguma controvérsia relativamente ao sentido desta relação. Se para
alguns autores a consciência fonológica é uma condição de sucesso na
aprendizagem da leitura e da escrita, outros consideram que a
aprendizagem do sistema alfabético contribui para o desenvolvimento da
consciência fonológica (Bradley & Bryant, 1983; Mann, 1989; Goswami,
1990 in Sim-Sim, 2006).
Para Sim-Sim et al. (2008) a relação
entre a consciência fonológica e a aprendizagem parece ser uma relação
recíproca e interativa. A perspetiva de uma relação recíproca entre a
consciência fonológica e a aprendizagem fundamenta-se no pressuposto de
que é necessário um mínimo de capacidades de reflexão sobre o oral para
que a criança consiga apreender a lógica inerente ao processo de
codificação da linguagem escrita. A aquisição da linguagem escrita vai,
por sua vez,
aprofundar o desenvolvimento de competências
fonológicas mais sofisticadas. Por outras palavras, as capacidades
infantis de análise das palavras em unidades silábicas, intrassilábicas
ou mesmo a deteção de fonemas iniciais comuns em diferentes palavras,
facilitam o processo de aprendizagem da leitura e escrita. Contudo, a
consciência explícita de que as palavras podem ser segmentadas em
sequências de fonemas parece ser uma consequência do próprio processo de
aprendizagem da leitura.
4. A importância do treino da consciência fonológica no pré- escolar
Freitas,
Alves & Costa (2007) defendem que o sucesso da aprendizagem da
leitura e da escrita está correlacionado com os desempenhos do sujeito
na oralidade: os sujeitos com fraco desempenho na produção e perceção de
enunciados orais são os que maiores dificuldades apresentam no processo
de aprendizagem da leitura e da escrita. Assim, o desenvolvimento de
competências no domínio da oralidade deve ser promovido em contexto
escolar, como medida preventiva do insucesso no desempenho de tarefas de
leitura e de escrita. O trabalho sobre a consciência fonológica,
realizado desde cedo e generalizado a toda a população infantil
permitirá promover o sucesso escolar.
Muitos estudos têm vindo a
demonstrar que a implementação de programas de treino relativos à
consciência fonológica, ou seja, programas que conduzem as crianças a
focar a sua atenção nos segmentos sonoros das palavras, durante a
educação pré-escolar, facilita o processo formal da aprendizagem da
leitura (Sim-Sim et al., 2008).
5. Sugestão de atividade



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